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Pai de quatro crianças que perdeu esposa grávida para Covid comemora Dia dos Pais com registro do enteado

O pai das crianças conta que depois que Flávia deu à luz a caçula Maria Cecilia, hoje com 1 ano, a mulher o fez prometer que iria cuidar de seus filhos e os colocar em um caminho bom

08/08/2021 | Redação
Rodrigo com três dos cinco filhos em sua casa / Foto: Arquivo Pessoal /Rodrigo Santos

Por Lívia Ferreira, G1 PI

O viúvo Rodrigo Santos vai passar o Dia dos Pais com um presente mais do que especial: a conquista do registro do enteado. Ele perdeu a companheira Flávia Carvalho, vitima de complicações da Covid-19, em julho de 2020. Segundo Rodrigo, a mulher, em seu leito de morte, o fez prometer que ele mesmo cuidaria das crianças.

Junto, o casal teve quatro filhos e Flávia já tinha um filho de três anos quando conheceu Rodrigo: Jefferson. O pedido da companheira virou uma promessa que Rodrigo se empenha em cumprir e repassar os ensinamentos da mãe às crianças.

"O dia dos pais não vai ser igual, porque a Flávia não está aqui. Mas eu estou aqui com eles e agora vou registrar o Jefferson como meu filho, porque ele é. E eu vou ser o pai dele. Quando ela estava no hospital e teve a neném ela disse que não era para eu dar nenhuma das crianças para adoção. Era para eu cuidar deles, educar eles e levar para o colégio, ser o pai deles como eu sempre fui. A gente também vai à igreja. Eu nem gostava, mas agora preciso ensinar meus filhos", contou o viúvo.

Segundo Rodrigo, os documentos necessários para o processo de adoção já foram odos encaminhados à Justiça. Agora o pai das crianças aguarda a confirmação do Judiciário.

Flávia começou a morar com Rodrigo em 2017, quando seu filho Jefferson tinha 3 anos. Logo em seguida, o casal teve os gêmeos João Lucas e Miguel, hoje com 4 anos. No ano seguinte, Flávia engravidou de Isadora, que atualmente tem 3 anos. Em 2020, a mulher deu à luz a pequena Maria Cecilia.

Covid-19 tirou a mãe de cinco crianças

Flávia Carvalho, 29 anos, morreu vítima da Covid-19 em Teresina — Foto: Arquivo Pessoal/Flávia Carvalho

Flávia Carvalho, 29 anos, morreu vítima da Covid-19 em Teresina — Foto: Arquivo Pessoal/Flávia Carvalho

A filha caçula do casal, nasceu na Maternidade Dona Evangelina Rosa (MDER), em Teresina, onde Flávia deu entrada, perto de dar à luz, porque tinha perdido muito líquido amniótico.

Logo fez o teste para a Covid-19 e, com o resultado positivo, foi colocada em isolamento. O pulmão dela estava bastante comprometido. A mulher chegou a conviver três dias com a filha até quando veio a óbito no dia 15 de julho de 2020.

Ganhando mais um filho no Dia dos Pais

Apesar das dificuldades, Rodrigo, que está desempregado no momento, assumiu o compromisso de cuidar de seus cinco filhos. O filho mais velho, Jefferson, de 6 anos agora, será registrado por Rodrigo.

A criança, inclusive, sempre preferiu morar com o pai adotivo. A mãe de Flávia abdicou da criação do neto assim que sua filha faleceu e o pai biológico do menino também disse que não poderia cuidar dele.

"Quando Jefferson morava com a avó, sempre que me via ele falava ‘Papai, a mamãe morreu, mas quero voltar a morar com o senhor’. Aí eu sempre falava para ele que a gente ia voltar a morar juntos, ele e os irmãos. A avó dele, mãe da Flávia, já disse que não queria cuidar do neto e o pai biológico dele já veio aqui ver ele mas também disse que não queria e não poderia cuidar dele", disse Rodrigo.

Hoje, graças às doações levantada por campanhas solidárias para a família de Rodrigo, o viúvo mora em sua casa própria com seus cinco filhos. A casa fica no mesmo terreno onde fica a casa dos avós paternos das crianças, que também ajudam na criação dos pequenos.

Apoio dos avós paternos

O pai de Rodrigo, Manoel Machado dos Santos, conta que é difícil alimentar oito pessoas em casa para quem não tem um emprego fixo. Ele disse ao G1 que as doações em agosto de 2020 ajudaram muito a família. Foram tantos alimentos que o idoso resolveu passar para frente a corrente de gentileza.

"A gente recebeu muita ajuda de pessoas e empresas. Tínhamos tantos alimentos, mas não tinha onde guardar. Então doamos para a comunidade e para dois abrigos, um de idosos e um de crianças", contou Manoel.

Os alimentos, móveis e até o término da reforma da casa de Rodrigo ajudaram muito a família por algum tempo, e todos conseguiram se estabilizar. Atualmente, Manoel está trabalhando como calceteiro e Rodrigo, embora estivesse trabalhando desde o começo do ano, agora está desempregado.

Alda Maria, avó das crianças, também ajuda na criação dos netos. A dona de casa passa a maior parte do tempo com as crianças e seus netos agora a chamam de mãe.

"A rotina está pesada ajudando o Rodrigo a cuidar das crianças, mas é assim mesmo, Deus quis assim. Eles perguntam da mãe, eles até choram, todos eles, quando um vê o outro chorando. Até a pequenininha, a Cecilia chora, mas eu sempre estou aqui e eles agora estão me chamando de mãe", disse dona Alda.

O viúvo Rodrigo conta com a ajuda de seus pais para criar seus cinco filhos no Piauí — Foto: Rodolfo Lima/Tv Clube

O viúvo Rodrigo conta com a ajuda de seus pais para criar seus cinco filhos no Piauí — Foto: Rodolfo Lima/Tv Clube

Visita ao cemitério

Em julho deste ano, cerca de um ano após o falecimento de Flávia, Rodrigo levou os gêmeos ao cemitério onde a mãe está enterrada. Segundo o viúvo, Miguel é um dos filhos que era mais apegado com a mãe e quando tomou consciência de que sua "mamãe estava no céu", passou a pedir para o pai o levar onde sua mãe estava.

"Eles perguntam da mãe, principalmente na hora do lanche, porque era a mãe deles que alimentava eles. O Miguel é o que chora mais. Ele era muito apegado com Flávia e eles ficavam pedindo para ver a mamãe. Então eu levei os gêmeos lá no cemitério, porque eles queriam ver onde ela estava enterrada", disse.

Rodrigo contou ao G1 que quando a pequena Maria Cecilia crescer mais um pouco, também vai levar ao cemitério, assim como Isadora e Jefferson, que ainda não quer ver o túmulo da mãe.

A rotina da família atualmente gira em torno da criação das crianças. Hoje elas estão matriculadas em uma escola da rede municipal que oferece ensino integral, mas por enquanto devido à pandemia da Covid-19, seguem com ensino remoto.

Para Rodrigo, a presença de Flávia ainda é constante, pois as crianças sempre falam da mãe. Com a ajuda de seus pais, o viúvo contou que tenta educar seus filhos como sua companheira fazia e passar a eles os ensinamentos deixados por ela.

"Eu quero que eles sempre se lembrem da mãe deles. Que eles estudem, consigam um bom emprego e sigam o que a mãe deles sempre ensinou, sempre andando por um caminho certo", disse.

 

Fonte: G1 / PI

Estagiária sob supervisão de Maria Romero.

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