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Ao alegar a questão financeira como um dos motivos que o levaram a desistir de disputar a reeleição na Câmara dos Deputados nas eleições de outubro, o deputado federal Jesus Rodrigues (PT-PI) deixou bem claro uma grave distorção na democracia brasileira: o dinheiro é indispensável para uma campanha vitoriosa.
“Quem tem mais, pode mais. Infelizmente, sem dinheiro não se faz quase nada na vida, nem campanha eleitoral. Consequentemente dinheiro não compra a felicidade, mas permite uma campanha bem mais ampla. Impressos, viagens, combustível, comitê e pessoal, quanto mais, melhor. Isso para não falar numa série de ações de précampanha que não entrarão na prestação de contas”, declarou.
Essa relação entre recursos econômicos e votos obtidos na abertura das urnas torna a disputa entre os candidatos desigual e injusta. Afinal, o candidato que não consegue muito dinheiro para a campanha, tem praticamente chances, com raras exceções, de ser eleito.
Ao analisar os gastos com campanha eleitoral nas três últimas eleições proporcionais e majoritárias estaduais no Piauí, percebe-se que os custos têm aumentado de maneira expressiva. Em alguns casos, o valor cresceu até 1.100% entre 2002 e 2010, quando ocorreram as últimas eleições estaduais. Cada vez mais os candidatos precisam ter dinheiro para terem chances de vitória.
Os valores são considerados tão altos que, além de Jesus Rodrigues, outros políticos tradicionais têm desistido de tentar eleição para deputado federal devido ao custo elevado. Um deles é o ex-senador Freitas Neto (PSDB), que avaliou que os gastos necessários para uma disputa para a Câmara dos Deputados não compensariam o prestígio que um deputado federal teria.
O cientista político Ricardo Arraes, professor da Universidade Federal do Piauí (Ufpi), diz que esse custo faz com que os candidatos e partidos entrem em uma dupla competição: uma por recursos, e outra, por votos. “As campanhas políticas, sejam elas quais forem, para presidente da República, governadores, deputados e mesmo vereadores, revelam que há, sim, graves distorções produzidas pela presença do poder econômico no mercado político”, avalia.
Fonte: Jornal O Dia