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EMILIO SANT'ANNA
DE SÃO PAULO
A incidência de sífilis entre viciados atendidos pelo Cratod (Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas) é mais de dez vezes superior à média da população da América Latina, segundo pesquisa do Estado.
A frequência de infectados surpreendeu os pesquisadores. Em breve, todos os pacientes passarão a ser testados para essas doenças.
"A grande pergunta é se isso está restrito a São Paulo ou se espalha por outras cracolândias pelo Brasil", diz Ronaldo Laranjeira, psiquiatra que conduziu esse levantamento e é coordenador do Recomeço –programa da gestão Geraldo Alckmin (PSDB) que fornece tratamento a dependentes de drogas.
Entre janeiro e maio, cerca de 800 pessoas foram testadas para sífilis e HIV na unidade da Secretaria de Estado da Saúde, a maioria deles frequentadores da cracolândia.
A análise encontrou resultados positivos do vírus da Aids em 5,3% dos dependentes testados. Isso representa prevalência até 13,5 vezes maior do que a da população brasileira em geral –que é de 0,4% a 0,7%, de acordo com relatório da Unaids.
O programa Recomeço, instituído por Alckmin em 2013, trabalha a saída do vício com tratamentos que incluem isolamento em comunidades terapêuticas.
Ele é desenvolvido na cracolândia simultaneamente ao Braços Abertos, criado em 2014 pela gestão Fernando Haddad (PT) e baseado na redução de danos —os dependentes são incentivados, por meio da oferta de emprego e renda, a diminuir o uso de drogas, sem internação.
INFECÇÃO
Em relação à sífilis, os testes deram positivo para a doença em 22% dos usuários. Esse resultado, porém, considera não só as pessoas com a infecção, mas também quem já teve a doença e se tratou, mas ainda apresenta a chamada "cicatriz sorológica".
A prevalência foi de 36% entre as mulheres, contra 18% nos homens. Do total de infectados, 40% nunca se trataram, 29% o fizeram, mas de forma irregular, e 31% foram tratados previamente com sucesso.
Descartando esse grupo que só tem a "cicatriz sorológica", a incidência da doença na amostra foi de 15% –prevalência 11 vezes maior do que a encontrada na população da América Latina (1,3%).
O desafio do tratamento é ser o mais simples e objetivo para facilitar para as pessoas mais vulneráveis socialmente, para diminuir a chance de continuar transmitindo a doença", diz Laranjeira.
Uma das medidas para isso, no Cratod, foi a incorporação de uma infectologista à equipe de médicos. O centro dá o coquetel para os dependentes soropositivos e aplica a penicilina nos usuários com sífilis. Isso para evitar que eles precisem se deslocar em busca dos medicamentos.
Em relação ao HIV, há outro problema: casos de pacientes moradores de rua que resistem em carregar os remédios, com medo de se exporem. A saída foi a administração do coquetel na própria unidade, diz a infectologista Viviane Briese.
Fonte:Uol