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O Brasil diante das urnas

24/10/2026 | Redação
O Brasil diante das urnas / Foto: Reprodução

Por que Flávio Bolsonaro pode derrotar Lula por até quatro milhões de votos

Uma leitura das pesquisas, da geografia eleitoral e do comportamento dos eleitores às vésperas do segundo turno.

24 de outubro de 2026  |  Bruno dos Santos Silva — Escritor, Colunista e Articulista

Há eleições que definem governos. Outras revelam mudanças mais profundas na maneira como uma sociedade enxerga o poder, a economia e o futuro. O segundo turno presidencial de 2026 reúne essas duas dimensões: uma disputa estreita entre Lula e Flávio Bolsonaro e um teste decisivo da capacidade de cada campo político de transformar identificação, rejeição e expectativa em comparecimento às urnas.

A tese desta análise é deliberadamente precisa: uma vitória de Flávio por três a quatro milhões de votos é matematicamente plausível e encontra respaldo em alguns levantamentos recentes. Mas plausibilidade não é certeza. A diferença entre uma interpretação séria e uma profecia partidária está justamente em reconhecer os dados que favorecem — e aqueles que contrariam — essa hipótese.

O país que saiu do primeiro turno

A apuração do primeiro turno colocou Flávio Bolsonaro à frente, com aproximadamente 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, conforme dados eleitorais divulgados após 4 de outubro. A vantagem inicial, da ordem de 2,2 milhões de votos, importa porque o senador já parte de uma coalizão eleitoral numerosa; ao presidente cabe reverter essa diferença por meio da transferência de votos e da mobilização de eleitores.

Entretanto, o segundo turno não é uma simples repetição da primeira votação. O comportamento dos eleitores de candidaturas eliminadas, as mudanças de comparecimento e o voto útil podem deslocar a disputa. O resultado de 4 de outubro é um ponto de partida, não uma garantia de chegada.

O que as pesquisas realmente dizem

A fotografia mais recente não é uniforme. O Real Time Big Data, em levantamento divulgado em 23 de outubro, registrou 52% a 48% para Flávio nos votos válidos. O PoderData/Aya indicou 51% a 49%; a Quaest, aproximadamente 50,56% a 49,44%. Já o Datafolha, em pesquisa realizada entre 20 e 22 de outubro com 2.520 entrevistas, registrou empate de 50% a 50%, com margem de erro de dois pontos percentuais.

É um conjunto de pesquisas compatível tanto com uma vitória do senador quanto com um resultado muito apertado ou uma virada do presidente. A liderança numérica de um candidato dentro da margem de erro não equivale a uma vantagem estatisticamente confirmada. Também não se deve tratar uma média informal de pesquisas como modelo probabilístico de previsão.

A matemática dos quatro milhões

Suponha, apenas para simular, que 125 milhões de votos sejam válidos no segundo turno. Para vencer por três milhões, Flávio precisaria receber 64 milhões, ante 61 milhões de Lula: 51,2% a 48,8%. Para vencer por quatro milhões, seriam 64,5 milhões contra 60,5 milhões: 51,6% a 48,4%. O ponto médio, 3,5 milhões, equivale a 51,4% a 48,6%.

Essa faixa se aproxima de pesquisas que dão ao senador vantagem de dois a quatro pontos percentuais. Contudo, o número absoluto depende do total efetivo de votos válidos. Sem conhecer esse denominador, não é correto converter automaticamente uma diferença de pontos percentuais em milhões de votos.

A geografia da polarização

O mapa eleitoral é um dos elementos centrais do confronto. O Datafolha de 22 de outubro apontou Lula mais forte no Nordeste (65% a 30% nos votos totais) e Flávio com vantagem no Sul (58% a 33%). Entre evangélicos, o senador aparecia com 69% a 26%; entre eleitores de renda de até dois salários mínimos, Lula liderava por 54% a 39%. São clivagens sociais e territoriais que mostram por que o resultado nacional não pode ser explicado apenas pela popularidade de um sobrenome ou pela avaliação de um governo.

A eleição é, também, uma disputa de participação: o eleitor que declara preferência, mas não comparece, não contribui para a contagem. Em cenário equilibrado, diferenças relativamente pequenas na abstenção entre regiões e segmentos podem ter efeito nacional expressivo.

O eleitor de terceira via e a força do voto negativo

Segundo o Datafolha, entre eleitores de candidatos eliminados no primeiro turno, 47% declaravam migrar para Flávio e 26% para Lula; 21% preferiam branco ou nulo e 6% permaneciam indecisos. Essa distribuição favorece o senador, mas o grupo é menor que as bases dos dois finalistas e parte de seus integrantes pode mudar de decisão.

O voto contra um adversário, e não necessariamente a favor de um projeto, também ganha peso em disputas polarizadas. A rejeição pode limitar a expansão de ambos. Por isso, a campanha final precisa converter rejeição ao oponente em voto efetivo, sem presumir que simpatia ou indignação se traduzam automaticamente em comparecimento.

O fator que pode decidir a eleição: quem vai votar?

A distância até o local de votação e o histórico de comparecimento passaram a integrar a discussão metodológica sobre o desfecho. O Datafolha identificou vantagem de Flávio entre eleitores que moram perto do local de votação, enquanto Lula aparecia à frente entre os que moram mais longe. Esse dado não prova qual grupo faltará mais, mas revela um mecanismo plausível pelo qual a abstenção pode alterar a margem final.

A pergunta decisiva não é somente “quem tem mais intenção de voto?”, mas “quais eleitores transformarão sua intenção em voto válido?”. Uma diferença de alguns pontos de comparecimento pode ampliar ou reduzir a vantagem que as pesquisas captaram.

A projeção e seus limites

A estimativa editorial deste artigo é de uma vitória de Flávio Bolsonaro por aproximadamente 3,5 milhões de votos, dentro de uma faixa de três a quatro milhões. Trata-se de um cenário condicional: exige participação e distribuição de votos compatíveis com cerca de 51,4% dos válidos para o senador, no exemplo de 125 milhões de votos válidos.

Há evidências favoráveis a essa tese — liderança no primeiro turno, vantagem numérica em vários institutos e transferência potencial de parte dos votos de candidaturas eliminadas. Há igualmente evidências que impõem prudência — empate no Datafolha, margens de erro, rejeição elevada e incerteza sobre o comparecimento. Não há base suficiente para afirmar que uma diferença específica já esteja determinada.

Conclusão: entre a tendência e a vontade popular

Se Flávio Bolsonaro conquistar uma vantagem de três a quatro milhões de votos, não será apenas o triunfo de uma campanha: será a demonstração de que uma parcela majoritária dos votos válidos optou pela alternância no comando do Executivo. Se Lula reverter a disputa, o resultado revelará a capacidade de seu campo político de recompor apoios diante de uma desvantagem inicial.

A projeção de 3,5 milhões de votos é uma aposta analítica fundamentada em cenários observáveis, não uma antecipação do resultado oficial. A democracia conserva sua última palavra para o eleitor. Amanhã, a matemática das pesquisas encontrará a realidade das urnas.

Fontes e referências

Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Resultados das eleições presidenciais de 2026, primeiro turno. https://resultados.tse.jus.br/

DATAFOLHA. Flávio Bolsonaro (PL) tem 47% e empate técnico com Lula (PT), 23 out. 2026. https://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2026/10/flavio-bolsonaro-pl-tem-47-e-tem-empate-tecnico-com-lula-pt-que-aparece-com-46.shtml

UOL. Flávio ou Lula, quem está na frente nas pesquisas?, 24 out. 2026. https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/10/24/flavio-ou-lula-quem-esta-na-frente-nas-pesquisas-veja-numeros-do-2-turno.ghtm

FOLHA DE S.PAULO. Datafolha divulgará análise de propensão ao voto, 24 out. 2026. https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/datafolha-divulgara-analise-de-propensao-ao-voto-neste-sabado.shtml

Sobre o autor

 

Bruno dos Santos Silva

Escritor, Colunista e Articulista

Artigo de opinião e análise eleitoral. As projeções apresentadas são hipóteses condicionais, não resultados oficiais ou estimativas probabilísticas certificadas

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